Uma troca improvável transformou uma mansão da Gilded Age na casa nova-iorquina da Cartier, onde arquitetura, memória e joalheria ainda dividem o mesmo endereço.
Há convites que desaparecem depois da festa e outros que entram para a nossa história. Ainda guardo o que recebi da Cartier , com uma ilustração em relevo da mansão da Quinta Avenida. Aquela noite marcou meus primeiros anos em Nova York. Depois da visita à casa recém-restaurada, os inconfundíveis Cartier grooms, com uniformes vermelhos, chapéus e luvas brancas, paravam o trânsito para nos conduzir ao outro lado da avenida, onde Ellie Goulding fez uma apresentação surpresa. Para mim, que já era fascinada pelas antigas mansões de Manhattan, aquela travessia parecia levar também a outro tempo da cidade.
A Gilded Age sempre exerceu esse efeito sobre mim. Há quem caminhe pela Quinta Avenida olhando primeiro para as vitrines da Saks ou da Bergdorf Goodman; meu olhar sobe até as fachadas, imaginando quem viveu ali e como algumas poucas casas sobreviveram à cidade que cresceu ao redor delas. A série da HBO e as histórias da família Astor, entre elas a de Madeleine Astor, sobrevivente do Titanic, alimentam a mesma curiosidade, mas poucas propriedades resumem aquele mundo tão bem quanto a Cartier Mansion, na esquina da Fifth Avenue com a 52nd Street.


A casa neorrenascentista foi concluída em 1905 por Robert W. Gibson para Morton F. Plant, filho do magnata ferroviário Henry B. Plant. Quando o comércio avançou sobre a região, Morton decidiu mudar-se para o norte. Sua segunda esposa, Maisie Plant, encantou-se então com um colar de duas voltas e 128 pérolas naturais, apresentado por Pierre Cartier. Em 1917, a joia, avaliada em cerca de um milhão de dólares, e mais 100 dólares simbólicos foram dados em troca da mansão. William Welles Bosworth adaptou os interiores, e a Cartier se instalou ali no mesmo ano.


O desfecho acrescenta uma ironia perfeita. Com a difusão das pérolas cultivadas, as naturais perderam valor, e os dois fios de Maisie foram vendidos em 1957 por 181 mil dólares. A casa seguiu o caminho oposto: tornou-se uma das últimas grandes mansões da Quinta Avenida ao sul da 59th Street, recebeu o status de landmark em 1970 e entrou para o National Register of Historic Places em 1983.
Quando a visitei em 2016, a mansão reabria depois de 30 meses de obras. Thierry W. Despont foi responsável pelos interiores, enquanto a Beyer Blinder Belle cuidou da arquitetura e da preservação histórica. A reforma ampliou a área destinada aos clientes de 8.600 para 44.100 pés quadrados e conectou quatro andares por uma escada central. A entrada da Quinta Avenida foi centralizada, os níveis dos pisos foram regularizados e uma enfilade passou a atravessar o térreo. Painéis de carvalho foram recuperados, e 30 lustres inspirados nos originais e 35 modelos de móveis sob medida devolveram aos salões uma escala residencial. Alguns desses móveis homenageiam Grace Kelly, Elizabeth Taylor, Gary Cooper e Santos-Dumont; sobre eles, o retrato de Maisie com as pérolas preserva a origem improvável do endereço. Na cobertura, um espaço de eventos, terraço e oficinas de joalheria completam a casa.


Em 2022, Laura Gonzalez acrescentou uma nova camada, concebendo o espaço menos uma boutique e mais um apartamento nova-iorquino. Panteras sobem pela escada sobre o carpete verde; no segundo andar, a antiga sala de música de Morton Plant integra uma área de hospitalidade com sala de jantar privativa. O terceiro reúne as áreas bridal, com veludo e quartzo rosa, além de um salão cor de champanhe, enquanto o quarto abriga o atendimento ao cliente entre painéis de marchetaria de palha inspirados em estojos antigos da Cartier.
Os detalhes recompensam quem observa com calma. Uma instalação cerâmica de Peter Lane recria as pérolas de Maisie como esferas suspensas; um mosaico de travertino e quartzo de Béatrice Serre une um bracelete Art Déco ao contorno do Chrysler Building. Quatro salões evocam as estações de Nova York, uma pintura de François Mascarello retrata dois cachorros no Central Park, com as torres do San Remo ao fundo.
Talvez seja por isso que continuo guardando aquele convite. A noite de 2016 foi deslumbrante, mas o que permaneceu comigo foi a sensação de ter entrado em uma casa que resistiu sem virar relíquia. As pérolas que compraram a mansão acabaram dispersas; a história ainda mora ali, entre a escada, os salões e uma fachada que me faz diminuir o passo toda vez que atravesso a Quinta Avenida.