Na Madison Avenue, o The Mark se tornou mais do que um hotel: um pequeno mundo nova-iorquino feito de design, rituais, cultura e da rara elegância de saber quando mudar.

No The Mark, atemporalidade não é uma estética. É uma disciplina: permanecer reconhecível sem deixar que o tempo pare ao redor.

No Upper East Side, onde Nova York ainda consegue parecer composta, o hotel nunca confundiu permanência com imobilidade. Sua identidade nasce da continuidade, mas sua energia vem do movimento: dos hóspedes que voltam, das novas pessoas que chegam, dos pequenos rituais que se repetem sem parecer automáticos e de uma maneira muito particular de entender a discrição como hospitalidade.

Não existe um único estilo no The Mark, e talvez esteja justamente aí a graça. Os interiores de Jacques Grange não foram feitos para serem contemplados à distância. Foram pensados para serem vividos. Arte contemporânea aparece ao lado de referências mais antigas, móveis escultóricos convivem com ambientes realmente confortáveis, e o piso preto e branco do lobby funciona quase como uma assinatura gráfica. Para construir esse universo, Grange reuniu nomes como Karl Lagerfeld, Guy de Rougemont, Paul Mathieu, Mattia Bonetti, Ron Arad e Vladimir Kagan. O resultado é sofisticado sem ser intocável. Izak Senbahar, proprietário do The Mark, já definiu o trabalho de Grange como “elegante e chique de uma maneira glamourosa e confortável”. A palavra conforto importa. O hotel está sempre bem vestido, mas nunca parece cenográfico.

Talvez seja também por isso que o The Mark consiga acrescentar coisas novas sem perder a própria personalidade. Diferentemente de hotéis cuja identidade precisa funcionar em dezenas de cidades, este é um endereço singular de Nova York, construído ao longo do tempo por seu proprietário e por colaboradores que parecem entender que consistência não é a mesma coisa que repetição. Aos poucos, certos elementos viraram parte de um vocabulário próprio: as listras, as bicicletas, o pedicab, o carrinho de flores, o carrinho de hot dog, os livros, o salão, o caviar, o veleiro. Separadamente, poderiam ser apenas serviços. Juntos, revelam uma maneira de pensar.

Alguns dos melhores exemplos estão do lado de fora, quase na calçada. O Haute Dog Cart, vestido com as listras pretas e brancas de Jacques Grange, serve os hot dogs de frango orgânico e carne bovina grass-fed criados por Jean-Georges Vongerichten para hóspedes e vizinhos. Nos meses mais quentes, o carrinho de flores acrescenta outra pequena cena à Madison Avenue. Em 2025, ele virou uma instalação “La Dolce Vita” em parceria com a Assouline, cheia de limões, livros da coleção italiana da editora e sorvetes inspirados em Capri e na Costa Amalfitana. É uma boa síntese de como o The Mark se reinventa. Nada essencial precisa mudar, mas sempre existe um novo detalhe capaz de fazer alguém olhar outra vez.

Por dentro, essa lógica ganha outras camadas. Jean-Georges ocupa há anos um lugar central na vida gastronômica do hotel. Em 2023, Caviar Kaspia acrescentou uma nota parisiense ao endereço. A casa nasceu em Paris em 1927, e sua versão nova-iorquina no The Mark, também desenhada por Grange, trouxe para a Madison Avenue as toalhas azuis, os bancos de mohair verde esmeralda e a célebre batata assada em duas etapas e coberta de caviar. Poucos passos adiante, a Assouline mantém sua livraria, com entrada própria pela 77th Street. No segundo andar, o salão de Frédéric Fekkai transforma o simples ato de se arrumar em parte da estadia, e hóspedes de algumas suítes podem receber serviços privados do hairstylist. Mais do que uma lista de serviços e comodidades, o conjunto parece uma montagem cuidadosa de tudo o que alguém gostaria de ter por perto caso o The Mark fosse, por alguns dias, uma casa em Nova York.

Essa ideia de casa talvez explique o que existe de mais sedutor no hotel. O luxo não está apenas no que se vê, mas em tudo o que deixa de dar trabalho. O café da manhã pode chegar da cozinha de Jean-Georges. Um cachorro encontra cama, potes, acessórios e até um menu criado pelo chef. É possível marcar massagem, personal trainer ou um tratamento com produtos e protocolos de Dr. Barbara Sturm sem sair do hotel. Há o quiosque de engraxate da John Lobb, a livraria, o salão, o piquenique para o Central Park e uma equipe capaz de costurar tudo isso em um dia que parece mais fácil do que Nova York normalmente permite. O The Mark não acumula serviços. Ele vai retirando os pequenos atritos da experiência.

Essa curadoria chegou também à cultura. O programa “Culture, à la Mark” aproxima hóspedes de algumas das instituições mais desejadas da cidade. Entre as experiências estão visitas após o horário de funcionamento, ligadas a exposições do Metropolitan Museum of Art e visitas privadas organizadas no Frick para hóspedes de determinadas categorias de suítes. É uma mudança sutil na ideia tradicional de concierge. Em vez de apenas conseguir reservas e resolver logística, o hotel passa a editar o acesso à própria cidade.

Courtesy of The Mark Hotel

Nenhuma noite torna essa relação com Nova York tão visível quanto a primeira segunda-feira de maio. Ao longo dos anos, o The Mark se transformou no quartel-general informal do Met Gala, o lugar onde a preparação privada encontra a imagem pública. Antes da escadaria do museu, existe a Madison Avenue. Os carros se alinham, fotógrafos esperam, stylists, maquiadores, designers e seguranças atravessam o hotel, e os convidados surgem vestidos de alta costura enquanto a calçada vira, por alguns minutos, sua própria passarela. A importância do The Mark para essa noite não está simplesmente no fato de celebridades se hospedarem ali. Está na habilidade de acolher as horas mais complexas ao redor do espetáculo: a preparação, a saída, a volta, a troca de roupa, a fome da madrugada e o momento em que os flashes finalmente se apagam.

Hoje, essa ligação com o Met também ganhou uma dimensão formal. Por meio da parceria com o museu, hóspedes de suítes elegíveis podem participar de visitas exclusivas fora do horário regular de visitação à exposição do Met Gala e a outras mostras ao longo do ano. Moda, arte e hospitalidade se encontram de maneira quase inevitável naquele quarteirão. O museu está perto, a Madison Avenue está na porta e o Central Park começa logo adiante. O The Mark ocupa justamente o ponto de encontro entre esses mundos.

The Mark Hotel Sailboat - @lifestylemag - lifestylemag.com
Courtesy of The Mark Hotel

E há ainda o veleiro, talvez o melhor exemplo de uma hospitalidade que não aceita ficar confinada ao prédio. Em 2026, a experiência chegou para seu nono verão a bordo de um Herreshoff de 70 pés, um dos últimos exemplares existentes. Até 25 pessoas podem sair do Chelsea Piers para um passeio de duas horas pelo porto de Nova York, acompanhadas de menu e coquetéis de Jean-Georges. Nos passeios privados, a experiência pode incluir Caviar Kaspia. Parte do encanto está no barco, claro, mas parte está em mudar o ponto de vista. O mesmo hotel associado à Madison Avenue revela, de repente, a cidade vista da água.

Essa facilidade de circular entre formalidade e brincadeira é uma das razões pelas quais o The Mark não fica preso à própria imagem. Existe seriedade no design, mas humor no carrinho de hot dog. Há caviar, mas também bicicleta. Em uma noite, o lobby pode receber alguns dos looks mais fotografados do mundo. Na manhã seguinte, uma família atravessa o mesmo espaço a caminho do parque. O hotel entende que uma pessoa pode querer alta costura às sete da noite e room service de pijama algumas horas depois. Esse tipo de equilíbrio não se compra apenas com orçamento. Ele depende de tom.

Em dezembro de 2025, quando o The Mark celebrava o centenário da primeira versão do hotel e duas décadas de sua reinvenção, a Assouline publicou o primeiro livro inteiramente dedicado ao endereço. Escrito por Derek C. Blasberg, o volume de 200 páginas reúne o design, os personagens e os rituais que ajudaram a transformar o hotel em uma instituição do Upper East Side. A frase de Senbahar que abre esse universo é reveladora: “As pessoas vêm ao The Mark porque sabem que ele é mais do que um hotel. É um lugar que cria memórias inesquecíveis.” Poderia soar como linguagem promocional. No The Mark, funciona melhor como um princípio do próprio hotel. Há uma busca contínua por pequenos detalhes que façam uma estadia virar história.

É também por isso que o hotel faz sentido como cenário da capa desta edição da Lifestyle Mag com Claire Rose. O The Mark é fotogênico, evidentemente, mas beleza sozinha seria uma explicação simples demais. O que aparece bem na imagem é a tensão entre o rigor e o vivo: um piso gráfico sob um vestido em movimento, um quarto cuidadosamente desenhado recebendo a energia mais espontânea de quem está se arrumando, um endereço histórico do Upper East Side que continua abrindo espaço para novos rituais.

Muitos grandes hotéis constroem sua identidade em torno da preservação de um passado idealizado. O talento mais interessante do The Mark é preservar sem ficar nostálgico. Ele protege seus códigos, mantém colaboradores por perto e permite que novas ideias atravessem esse repertório. O caviar pode chegar de Paris. Um veleiro pode se tornar parte de uma estadia em Manhattan. O carrinho de flores pode ganhar sotaque italiano por um verão. Uma visita ao museu pode continuar depois que as portas se fecham. O lobby pode pertencer ao Met Gala durante algumas horas e, no café da manhã seguinte, simplesmente voltar a ser lobby.

Talvez seja essa a verdadeira arte de se renovar. Mudar sem deixar de ser reconhecível e permanecer sem transformar familiaridade em previsibilidade. O The Mark consegue sustentar as duas coisas ao mesmo tempo. É familiar o suficiente para dar vontade de voltar e curioso o bastante para ainda oferecer algo a descobrir. Em uma cidade que se reinventa quase compulsivamente, essa continuidade pode ser um dos luxos mais nova-iorquinos de todos.