By Catherine Jacobi

Um cometa, um rei ainda estudante e um Spitfire batizado em homenagem a uma rainha: como as mulheres de Tonga transformaram a casca de árvore em registro dos momentos que suas ilhas escolheram lembrar.

Photo: James Alcock, 2023. © Australian Museum. 

Na manhã de 9 de junho de 2023, dois guindastes ergueram um rolo pesado do depósito do Australian Museum em Castle Hill, e um caminhão o levou até o Blacktown Leisure Centre, numa região do oeste de Sydney onde vivem muitas famílias das ilhas do Pacífico.

Estendido no chão, media 29 por 15 metros.

Nukuhetulu Koka’anga, 2017. ICHCAP, via Google Arts & Culture. 

O povo de Tonga o havia oferecido ao Sydney Opera House Trust para a inauguração do edifício pela rainha Elizabeth II, em 1973, e ele foi usado durante as cerimônias. Frágil e grande demais para permanecer ali, seguiu para o museu, onde esperou, enrolado, por meio século. A princesa Angelika, de Tonga, compareceu para vê-lo aberto por inteiro pela primeira vez desde então.

Seu nome é Ngatu Me’a’ofa, que o museu traduz como "tapa presenteado".

O que o público em Blacktown viu naquela manhã era um presente e, ao mesmo tempo, uma página. Toda sociedade guarda sua memória em algum lugar: em arquivos, em monumentos, no álbum de fotos da família. Tonga guarda há muito tempo uma parte generosa dela em tecido.

Ngatu, o nome tonganês para o tecido de casca de árvore, é feito da casca interna da amoreira-de-papel, batida até ficar fina, unida em grandes folhas e depois decorada por grupos de mulheres que trabalham lado a lado.

O fazer é coletivo, e o lembrar também. As mulheres primeiro imprimem no tecido uma base de padrões herdados e depois pintam por cima à mão, e as longas horas ao redor da mesa servem também para trocar notícias e histórias, como observa o Bowers Museum, na Califórnia. O que tivesse importância naquela estação podia encontrar seu lugar na superfície.

O Te Papa, museu nacional da Nova Zelândia, que reúne cerca de 60 ngatu tonganeses, os descreve como documentos históricos que registram momentos pequenos e grandes, tal como os próprios tonganeses os viam.

Lido dessa forma, o tecido se torna uma crônica da chegada do mundo moderno às ilhas.

Gramofones e bicicletas aparecem nos ngatu da coleção do Te Papa, ao lado de troféus de críquete, leões, pombas e do brasão de Tonga. Um tecido de por volta de 1911 registra a passagem do cometa Halley, avistado em 1910. Outro marca o momento em que a eletricidade chegou a um vilarejo, com postes de luz elétrica pintados sobre a casca.

Às vezes, o tecido se lembra de uma pessoa antes da própria história.

Purchased in 2009. CC BY-NC-ND 4.0. Te Papa (FE012487)

Um ngatu datado de 1932 traz o nome Siaosi Tāufa'āhau, pintado ao lado de troféus de críquete e do brasão do Tupou College, onde ele era então aluno. Décadas depois, ele se tornaria o rei Tāufa'āhau Tupou IV, e um pedaço de casca de árvore guardava seu nome desde o início.

Quando a Segunda Guerra Mundial chegou ao Pacífico, chegou também ao tecido. Sob o reinado de Sālote Tupou III, Tonga arrecadou £15.000 para que a Grã-Bretanha comprasse três Spitfires, e o primeiro, pago em abril de 1941, recebeu o nome da rainha.

Gift of Valerie Morris, 1989. Te Papa (FE008724). 

Um ngatu feito nos anos 1940 mostra esse avião levando uma faixa com os dizeres Queen Salote, pintado ao lado do brasão de Tonga e das bandeiras da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.

Um pequeno reino registrou sua participação numa guerra mundial nos próprios termos, com os próprios materiais.

O que sobrevive no Te Papa é apenas um fragmento, e isso faz parte da história. Um número pintado perto da borda conta as seções do tecido muito mais longo de onde ele saiu, e Anne Peranteau, conservadora de têxteis do museu, explica que os ngatu eram cortados para que pedaços menores pudessem ser dados de presente.

É um arquivo feito para viajar.

O Te Papa descreve o ngatu de hoje como um presente em circulação constante, passado de família em família em casamentos, funerais e outras ocasiões, de modo que um tecido feito para marcar o momento de uma casa pode muito bem reaparecer no de outra.

Como o ngatu vive do uso, ele também aprendeu a mudar.

Quando mulheres tonganesas na Nova Zelândia encontraram dificuldade para importar a casca de árvore de casa, começaram a experimentar. Em março de 1996, o 'Ilo Me'a Fo'ou (New Creations) Tongan Women's Group, de Upper Hutt, perto de Wellington, fez um ngatu pepa de Vilene, a entretela sintética vendida em lojas de tecidos, unindo suas camadas com farinha e água quente. Elas mantiveram a antiga paleta de vermelho escuro, marrom e preto com borda esbranquiçada, para que ficasse o mais parecido possível com a versão em casca.

O material era novo, mas a maneira de fazer e decorar vinha direto de casa. Em 2021, o grupo Akomai Heritage levou três gerações de famílias tonganesas ao Te Papa para uma semana de produção de ngatu à vista do público.

Em 2021, o grupo Akomai Heritage levou três gerações de famílias tonganesas ao Te Papa para uma semana de produção de ngatu à vista do público. Como contou uma das mulheres à RNZ Pacific: "Nascemos com o ngatu e somos enterrados com o ngatu."

Para a amada rainha de Tonga, essa frase foi literal.

Sālote, cujo nome havia voado naquele primeiro Spitfire, morreu na Nova Zelândia em 1965, oito anos antes de seu reino enviar o presente a Sydney para a rainha Elizabeth II. Quando seu corpo foi levado de volta para casa, um ngatu de cerca de 23 metros foi colocado sob seu caixão.

Te Papa (FE012488), Unknown; maker/artist; 1940s; Tonga. 

Esse tecido hoje repousa no Te Papa, na mesma coleção do avião.

Te Papa (FE010743), Ilo Me’a Fo’ou (New Creations); artist; March 1996; New Zealand.