Em Tribeca, Laura Gonzalez transforma artesanato francês, cor e uma relação sensual com os interiores em um espaço que se aproxima mais de uma casa do que de um showroom.

Entrar na galeria de Laura Gonzalezna Franklin Street é menos como visitar um showroom convencional e mais como chegar à casa de alguém com um olhar muito particular. A luz natural atravessa as grandes janelas e encontra superfícies esmaltadas, tecidos estampados, madeira, cerâmica, bronze e vidro. Uma luminária escultórica aparece ao lado de uma poltrona generosa; móveis e obras de arte convivem sem a separação rígida de uma exposição. Tudo parece cuidadosamente escolhido, mas nada tem cara de cenário.

A localização ajuda a entender essa escolha. Tribeca preserva nos antigos edifícios comerciais pés-direitos altos, grandes janelas e plantas abertas. É dentro dessa escala industrial de Manhattan que Gonzalez introduz uma maneira francesa de morar, sem tentar transformar o espaço em imitação de Paris.

No número 102 da Franklin Street, sua primeira galeria fora da capital francesa é bem maior que o endereço da Rue de Lille. A diferença permite criar ambientes completos, em vez de apresentar móveis como objetos isolados. A arquitetura nova-iorquina continua visível, suavizada por uma lareira desenhada para o espaço, grupos de assentos que convidam à conversa, arte, iluminação e objetos que explicam cada peça em relação a uma sala.

Hedonismo é uma palavra recorrente no universo de Gonzalez, mas o prazer aparece menos no excesso do que nos materiais e no tempo dedicado à execução. A mesa Medusa se apoia em pernas retorcidas de bronze fundido; a luminária Himawari assume a presença de uma flor escultórica. Cerâmicas e objetos cobertos de conchas deixam visíveis pequenas irregularidades do trabalho manual. O vocabulário circula entre mobiliário e escultura sem exigir que se escolha um lado.

As curvas, formas orgânicas e referências à natureza aproximam certas peças do Art Nouveau. A geometria, as superfícies trabalhadas e a ambição artística de objetos funcionais lembram o Art Déco. Gonzalez não reproduz nenhum dos dois períodos: mistura-os a proporções contemporâneas, cores inesperadas e técnicas artesanais, criando ambientes que não pertencem inteiramente a época alguma.

O artesanato é a estrutura desse ecletismo. A galeria permite observar detalhes que desapareceriam numa fotografia e coloca peças da coleção ao lado de objetos únicos e obras de arte. Torna-se, assim, um laboratório para combinações que Gonzalez também explora em residências, restaurantes e hotéis. O savoir-faire francês deixa de ser apenas referência estética e aparece na maneira como cada objeto é feito.

O espaço tampouco foi pensado para permanecer estático. Um programa de exposições rotativas traz outros artistas para dentro do universo do mobiliário. A iniciativa reforça a impressão de casa: interiores não precisam nascer completos nem ficar congelados. Mudam conforme objetos, obras e histórias entram em cena.

Essa talvez seja a leitura mais precisa de art de vivre em seu trabalho. Uma cadeira altera a maneira de permanecer numa sala; uma luminária muda sua atmosfera; um tecido ou uma cerâmica pode se tornar tão importante para a memória de um lugar quanto a arquitetura. Na Franklin Street, a escala de Tribeca, o rigor do artesanato francês e a exuberância das cores convivem sem disputa. O luxo específico de Gonzalez está em criar objetos que continuam interessantes depois do primeiro olhar.

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Photo: Inês Silva Sá