By Catherine Jacobi
No Asaba, em Izu, a mesa onde você jantou desaparece enquanto você está no banho. Essa transformação silenciosa revela muito sobre a maneira japonesa de receber.

The Japanese style sitting room in Matsukaze, at Asaba, as it looks by day: tatami, a low table and cushions, facing the pond and the Noh stage. Courtesy of Asaba.
No Asaba,, em Shuzenji na península de Izu, os sapatos ficam na entrada e o hóspede é conduzido até o quarto. No Matsukaze, que a casa descreve como seu quarto de estilo puramente japonês, há tatame no piso, uma mesa baixa na sala, almofadas ao redor e, do outro lado da janela, o lago e o palco de nô. O chá chega logo. O futon ainda está guardado.
O Japan National Tourism Organization descreve os quartos da casa assim: mesa e almofadas para descansar durante o dia, futons espessos estendidos sobre o tatame à noite. É o desenho clássico do ryokan, em que um único cômodo serve de sala, sala de jantar e quarto, uma função de cada vez. No Asaba de hoje, cada acomodação ganhou um dormitório ao lado da sala de estilo japonês, e a troca passou a acontecer entre os dois ambientes, na mesma ordem e no mesmo horário. O Michelin Guide, que mantém a casa entre as Três Chaves do Japão, trata o Asaba como o protótipo do ryokan, e por isso ele é um bom lugar para observar essa troca acontecer.
A vocação para receber vem de longe. Segundo a família Asaba, a história começou em 1484, quando Yakuro Yukitada Asaba se tornou guardião do templo de Shuzenji e abriu, diante de seus portões, uma hospedaria para os monges que chegavam. Mais de cinco séculos depois, a casa continua nas mãos de seus descendentes.

The garden and pond at Asaba, in Shuzenji, on the site where the family opened a lodging for monks in 1484. Courtesy of Asaba.
O dia no ryokan se organiza em torno do jantar. Muitos hóspedes tomam o primeiro banho de fonte termal no fim da tarde e retornam ao quarto vestidos de yukata. Então a mesa da sala recebe a refeição, servida ali mesmo entre 18h e 19h por um atendente exclusivo. Os japoneses têm uma expressão para esse tipo de cuidado: age-zen sue-zen, servir a mesa e retirá-la sem que o hóspede precise pedir. A ideia ultrapassa a cortesia. Pressupõe-se que a casa conheça o ritmo de quem recebe bem o suficiente para agir antes que qualquer pedido seja feito.

Dinner at Asaba is served in the guest’s room between 6 and 7 p.m. by a private attendant. Courtesy of Asaba.
O costume de levar a refeição até o viajante tem raízes na própria estrada. Durante séculos, quem atravessava o Japão carregava sua comida em um cesto de bambu chamado hatago e alugava apenas um teto, onde preparava a própria refeição. No período Edo, quando as estações do Tokaido passaram a ligar Edo a Kyoto e as viagens se tornaram mais frequentes, algumas hospedarias começaram a servir comida e herdaram o nome do cesto. As que continuaram sem cozinha ficaram conhecidas como kichinyado, pois o hóspede pagava pela lenha e cuidava da própria refeição. Desse período vem uma fórmula que ainda organiza a experiência do ryokan: uma noite, duas refeições, jantar e café da manhã.

Utagawa Hiroshige, “Inn with Serving Maids, Akasaka,” no. 37 from the series The Fifty-three Stations of the Tokaido, c. 1833–1834. Color woodblock print, published by Takenouchi Magohachi (Hōeidō). RISD Museum, gift of Mrs. John D. Rockefeller Jr. (41.080.37). Public domain.
O quarto só consegue mudar de função porque foi pensado para isso. No período Edo, o tatame passou a cobrir o piso inteiro dos cômodos, e a cama japonesa, o futon, nunca teve estrutura fixa. Pela manhã, ela é dobrada e guardada no oshiire, um armário fundo de portas corrediças, e o quarto volta a ser sala. O ryokan levou essa lógica doméstica para a hospitalidade, com uma diferença decisiva: em casa, cada um estende a própria cama; no ryokan, alguém faz isso por você.
A troca acontece no intervalo. Terminado o jantar, enquanto o hóspede volta à fonte termal ou caminha pelo jardim, a atendente retira a louça e estende o futon, com lençóis e edredom, sobre o tatame. Hóspedes do Asaba relatam exatamente isso: depois do jantar, o futon aparece pronto. O momento varia de casa para casa, e o contraste ajuda a entender o conceito. Nos minshuku, as pousadas familiares mais simples, o futon fica no armário à espera, e quem o estende é o próprio hóspede. No ryokan, age-zen sue-zen se estende ao quarto inteiro: depois da mesa, é o próprio cômodo que se transforma sem que ninguém precise pedir.

The futon laid out on the tatami of the bedroom after dinner, in one of Asaba’s traditional rooms. Courtesy of Asaba.
O Asaba se adaptou ao viajante de hoje. Seis de suas acomodações têm camas queen feitas sob medida, e o futon entra em cena quando o quarto recebe mais de duas pessoas. Nas outras, como o Matsukaze, a cama continua sendo um futon feito sob medida, estendido depois do jantar, de frente para o palco de nô que a família trouxe de Tóquio no fim da era Meiji.
Mais de cinco séculos depois de Yakuro Asaba abrir as portas aos monges de Shuzenji, a cena continua igual. Você volta do banho, a louça já foi retirada, e o futon espera estendido sobre o tatame, arrumado por alguém que você não viu entrar.

The Gekkeiden, Asaba’s Noh stage, brought from Tokyo in the late Meiji period and set across the pond from the guest rooms. Courtesy of Asaba.