Em dois hotéis de personalidades opostas, Valentina De Santis defende uma hospitalidade construída menos pela perfeição do que pela memória, pelo instinto e pela presença humana.

Antes de aprender a administrar um hotel, Valentina De Santis aprendeu a desaparecer dentro de um. Durante a infância, percorria os corredores do Grand Hotel Tremezzo, entrava nas cozinhas e nos bastidores e observava hóspedes serem recebidos como velhos amigos, porque o negócio da família era também o lugar onde ela crescia.
Hoje, Valentina conduz ao lado dos pais, Paolo e Antonella De Santis, duas propriedades que compartilham os mesmos valores sem se comportar como gêmeas. O Grand Hotel Tremezzo preserva o movimento e a teatralidade de um grande hotel da Belle Époque, enquanto o Passalacqua, adquirido pela família em 2018 e aberto como hotel em junho de 2022, ocupa uma villa do fim do século XVIII em Moltrasio. Suas 24 acomodações se distribuem entre a Villa, o Palazzo e a Casa al Lago, em meio a sete acres de jardins que descem até o Lago de Como.
É essa escala mais íntima que recupera uma palavra quase ausente do vocabulário contemporâneo das viagens: villeggiatura, a arte italiana de transferir a vida para uma casa de campo durante uma estação. Ampliada para o conde Andrea Lucini-Passalacqua pelo arquiteto Carlo Felice Soave, a villa já havia acumulado muitas histórias antes de se tornar um hotel. Durante uma estadia em 1831, Vincenzo Bellini compôs ali La Sonnambula A restauração procurou acrescentar uma nova camada a esse passado, preservando a intimidade da casa sem transformá-la em cenografia.



LM: Crescer em um hotel pode parecer uma infância cercada de glamour. O que essa experiência realmente lhe ensinou?
VDS: Aprendi muito cedo que a essência de um hotel não está nos quartos bonitos, mas na família ampliada formada por centenas de pessoas que cuidam umas das outras.
LM: Como você equilibra intuição e estratégia ao decidir o futuro dos hotéis?
VDS: There are decisions you can analyze for weeks, and others where you simply know: this is right. Passalacqua was very much like that. I feel instinct serves me and my family best when we are dreaming about the future of our company. Whenever we truly listen to our gut, those decisions prove themselves in the numbers, too.
LM: Your family has cared for properties on Lake Como for generations. How do you honor that legacy without allowing it to stand still?
VDS: We are guardians and caretakers before we are entrepreneurs and hosts. The best way to honor the past is, as the saying goes, to “tend the flame, not worship the ashes.” I was lucky enough to inherit incredibly passionate flames, and my goal from the beginning has been to keep the magic alive for generations to come.
LM: Que novo capítulo o Passalacqua te permitiu escrever?
VDS: Um capítulo completamente novo na história da hospitalidade do lago. Desde o instante em que atravessamos seus portões, percebemos a possibilidade de criar algo especial, profundamente pessoal e inteiramente diferente do Grand Hotel Tremezzo: uma casa verdadeira, onde os hóspedes pudessem redescobrir a arte perdida da villeggiatura.
LM: Muitos hotéis perseguem a perfeição, enquanto o Passalacqua parece buscar intimidade. Qual é a diferença?
VDS: No centro de tudo está o genius loci, expressão latina que descreve o espírito particular de um lugar. Primeiro, precisamos compreender o que torna aquele espaço único para, então, permitir que essa identidade oriente todo o projeto. A alma de um lugar não nasce somente da arquitetura, do mobiliário ou do design, mas de algo mais profundo, construído por sua história, suas tradições e pela cultura da região.



LM: Como os dois hotéis preservam identidades tão distintas e, ao mesmo tempo, compartilham uma única visão de hospitalidade?
VDS: Nossa visão está enraizada na família, no patrimônio e em uma italianidade verdadeira, mas nunca quisemos que as duas propriedades tivessem a mesma aparência ou provocassem a mesma sensação. O Grand Hotel Tremezzo é um grande hotel glamouroso e vibrante da Belle Époque, enquanto o Passalacqua é uma villa íntima, preparada para receber os hóspedes como se estivessem em casa. Suas personalidades são completamente diferentes, mas a maneira de cuidar é a mesma.
LM: Quando você percebeu que o Passalacqua havia se tornado exatamente aquilo que sua família imaginara?
VDS: No primeiro dia de funcionamento, um de nossos hóspedes tirou uma fotografia e comentou: “Acabou de abrir e já é um clássico.” Para mim, isso diz tudo.
LM: O significado do luxo está mudando?
VDS: Estamos nos afastando de um modelo movido pelo excesso em direção a algo muito mais poderoso, uma exclusividade de natureza emocional. A privacidade está se tornando um dos bens mais valiosos da hospitalidade, enquanto patrimônio e autenticidade ganham importância diante da novidade. O silêncio e o espaço também se tornam luxos verdadeiros, porque luxo agora é significado e aquilo que não está ao alcance de todos.
LM: A tecnologia poderá substituir parte do ofício de receber?
VDS: Hospitalidade é, em última instância, relacionamento e conexão humana. A tecnologia pode tornar muitas coisas mais rápidas e eficientes, mas nada substituirá o cuidado e o acolhimento que sentimos diante de um sorriso genuíno.
LM: O que você espera que nunca mude nos próximos vinte anos?
VDS: A paixão das pessoas por trás de tudo.
LM: Que legado gostaria de deixar?
VDS: Espero ter mostrado que a hospitalidade sempre precisará de um toque de feminilidade.
LM: Que detalhe é tão importante em sua casa quanto nos hotéis?
VDS: Flores podem criar magia. Um ambiente pode ser bonito, mas, quando recebe as flores certas, de repente ganha vida.