Na de Gournay, paredes se transformam em paisagens habitadas, construídas com técnicas históricas, anos de formação e a presença inconfundível da mão humana.


Meu primeiro encontro verdadeiro com a de Gournay aconteceu antes que eu conhecesse suas técnicas. Durante a produção de uma matéria sobre o Le Bristol Paris, entrei em uma das suítes do hotel e, embora estivesse cercada por móveis, sedas e uma composição decorativa de enorme precisão, foi a paisagem pintada nas paredes que reteve meu olhar. Havia uma relação tão particular entre o desenho, a arquitetura e a luz que seria difícil imaginar aquele revestimento em qualquer outro lugar
O Le Bristol utiliza painéis de seda pintados à mão pela de Gournay na Suíte Impériale e também no Epicure, seu restaurante com três estrelas Michelin. Na suíte, a laca chinesa, o veludo de seda de Lyon e as paredes pintadas falam a mesma língua, formando um interior que se modifica discretamente ao longo do dia. O que me encantou não foi apenas a beleza da pintura, mas a percepção de que ela havia sido pensada como parte da atmosfera do quarto, e não escolhida posteriormente para ornamentá-lo.
É nessa relação com o espaço que se encontra uma das diferenças fundamentais do trabalho da de Gournay. Enquanto um papel de parede impresso depende da repetição exata de uma estampa, uma composição pintada à mão pode acompanhar a arquitetura, fazendo um galho contornar o vão de uma porta, posicionando um pássaro em relação à cama ou criando uma paleta específica para a luminosidade do ambiente. A imagem pode surgir sobre papel Xuan, India tea paper ou seda tingida, ou ainda sobre superfícies revestidas com prata, ouro branco ou ouro profundo, às quais se somam pátinas, laca, baixo-relevo e bordados.

A história da casa começou nos anos 1980, quando Claud Cecil Gurney passou a pesquisar maneiras de recuperar o esplendor dos revestimentos chineses do século XVII. Em suas viagens pela China, percebeu que a produção industrial havia substituído parte do trabalho artesanal que procurava, mas acabou encontrando artistas cujos pais e avós ainda dominavam aqueles métodos. Esse conhecimento serviu de base para a criação de um ateliê contemporâneo capaz de preservar técnicas históricas sem se limitar a reproduzir o passado, um trabalho do qual hoje também participam suas filhas, Hannah e Rachel.
A formação dos artistas do estúdio chinês leva cinco anos e inclui a preparação das superfícies, a construção das paletas e o domínio de repertórios que abrangem chinoiseries, paisagens panorâmicas, motivos japoneses e coreanos e geometrias Art Déco. Entre os métodos ensinados está uma técnica com dois pincéis, na qual o primeiro deposita a aquarela e o segundo, carregado somente com água, conduz o pigmento para criar uma passagem quase imperceptível entre sombra e luz.
Um painel botânico de inspiração chinesa pode envolver três artistas e exigir até 250 horas de trabalho, embora o tempo de execução explique apenas parte de sua singularidade. A pressão exercida pelo pulso altera o contorno de uma folha, assim como um pássaro assume expressões ligeiramente diferentes quando interpretado por outro pintor. Em vez de eliminar essas variações para alcançar uma uniformidade artificial, a de Gournay as preserva como marcas de autoria.



A casa relaciona essa presença ao conceito de “spirit resonance”, um dos seis princípios clássicos da pintura chinesa, baseado na ideia de que a vitalidade do artista permanece naquilo que ele cria. Sob esse ponto de vista, as pequenas diferenças percebidas ao longo de uma superfície não são falhas ou acidentes, mas vestígios das pessoas que participaram de sua construção.
A mesma filosofia orienta os revestimentos e tecidos com bordados feitos à mão sobre bases de seda, linho, veludo e cetim de lã, algumas vezes enriquecidos com fios metálicos, contas de vidro, paetês ou ráfia. Os artesãos da de Gournay também desenham e pintam porcelanas manualmente, criando aparelhos de jantar, luminárias, vasos e pequenas figuras a partir do conhecimento desenvolvido nos antigos ateliês chineses. As referências podem vir de outros séculos, mas escala, materiais e cores são reinterpretados para interiores atuais, evitando que o trabalho se transforme em um exercício de nostalgia.

Essa capacidade de adaptação levou o trabalho da de Gournay a ambientes muito distintos, entre eles o Annabel’s, em Londres, o The Colony Hotel, em Palm Beach, o Claridge’s, o The Savoy e o Bergdorf Goodman, em Nova York. Em alguns projetos, a pintura permanece silenciosa entre antiguidades e tecidos, enquanto em outros estabelece o ritmo dominante da arquitetura, demonstrando que uma linguagem reconhecível não precisa produzir resultados previsíveis.
Ainda penso naquela suíte do Le Bristol e no instante em que a parede deixou de parecer um fundo para adquirir uma presença própria. Em algum lugar, um artista havia decidido a direção de cada ramo, o ponto exato em que uma flor deveria se abrir e o lugar onde o olhar encontraria uma pausa antes de continuar pela paisagem. Quem tomou essas decisões já não estava ali, mas o movimento de sua mão permanecia visível.

