A marca das irmãs Sarti completa 20 anos e levou ao SPFW N61 um piano de cauda, drapeados em espiral e chifres que só aparecem de muito perto.

Por Catherine Jacobi

Em 2006, Lilly Sarti queria usar roupas que não encontrava nas lojas e resolveu o problema do jeito mais direto possível: foi atrás de uma costureira. As amigas viram o resultado e passaram a pedir as delas. Um desfile informal levou as peças às araras da Daslu e, dois anos depois, a marca que ela fundou com a irmã, Renata, já somava 40 pontos de venda e duas lojas próprias.

“Foi tudo muito rápido e sem nenhuma pretensão”, contou Renata à Forbes, em 2024.

Na sexta-feira, 16 de outubro, havia um piano de cauda preto no meio da passarela de concreto do SPFW N61. Um pianista tocava enquanto as modelos passavam rente à tampa aberta. O primeiro look, um casaco curto xadrez sobre calça estampada, amarrado por um cinto de couro longo, abriu uma paleta de areia e marrom que depois passaria pelo laranja e pelo vermelho até chegar a um azul esverdeado com poás pretos.

Na temporada passada, a coleção kosmo.polítes partiu da etimologia da palavra cosmopolita, numa busca, nas palavras de Lilly, para “entender tudo o que fizemos até agora”. Desta vez, as irmãs olharam para a frente, mais precisamente para o calendário.

O ponto de partida foi o horóscopo chinês. Pelo calendário lunar, 2027 é o ano da cabra, um animal associado à suavidade, e foi atrás dessa delicadeza que as irmãs desenharam o inverno. O ano novo chinês só acontece em 6 de fevereiro. As Sarti resolveram não esperar.

Ninguém vai encontrar uma cabra estampada nas roupas. O animal aparece nos detalhes: nos franzidos em espiral dos vestidos de malha drapeada, que reproduzem a forma e a textura dos chifres, e num jacquard xadrez que, de longe, parece uma estampa pixelada. A CHNews comparou o desenho às ranhuras de um chifre visto ao microscópio.

A Ásia volta por outro caminho, nas calças balonê e nas blusas de punhos largos com fechamento transpassado, que lembram um quimono. Os tecidos são naturais (algodão, seda e cetim), e o cetim chega até a alfaiataria, nas calças. Lilly já definiu o que faz como “uma roupa que funciona de segunda a domingo”, e a coleção segue a regra: são peças fáceis de combinar entre si.

Por trás de tanta suavidade existe uma dupla bastante objetiva. Lilly, diretora criativa e de estilo, estudou relações internacionais e se define como burocrática e estratégica. Renata é formada em administração. Nenhuma das duas aprendeu a fazer roupa na escola: confecção e gestão vieram na prática, no chão da fábrica, num modelo que Lilly descreve como “corpo a corpo, muito presente”. As duas apontam a mãe, Sofia Sarti, como maior inspiração, e foi a ela que dedicaram a coleção dos 18 anos da marca. Naquele ano, a operação já reunia cerca de 40 funcionários, 53 multimarcas pelo Brasil e uma loja própria nos Jardins.

O universo western, presente há várias coleções (a dos 18 anos teve botas, couro macio e franjas longas), continua lá, agora conversando com a delicadeza. Há franjas numa minissaia, camisas de inspiração country e bandanas de couro amarradas no pescoço. Trench coats e jaquetas utilitárias equilibram a leveza e montam uma exploradora entre montanhas e desertos. No styling, Antônio Frajado deixou à mostra forros coloridos que aparecem com o movimento, pôs bolsas em formato de saco debaixo do braço e prendeu correntes com pingentes dourados nos pulsos e nos tornozelos.

O final ficou com o tule. Saias volumosas e aplicações em rosetas, em marfim e em rosa claro, fecharam a fila antes do agradecimento das irmãs, que entraram na passarela ao lado do piano.

A primeira pessoa a vestir Lilly Sarti foi a própria Lilly. As seguintes foram as amigas dela. Há um ano, às vésperas de completar duas décadas de marca, ela falou à Elle Brasil sobre quem continua comprando:

“Esses 20 anos nos deram background suficiente para entender que nossa cliente é de longa data.”