Entre arquivos, especialistas e séculos de colecionismo, a Christie’s revela como conhecimento também circula com as obras
Will Strafford, Vice-presidente e especialista internacional sênior do departamento de mobiliário europeu e artes decorativas da Christie's , passa parte de seus dias deitado no chão de um depósito, olhando por baixo de móveis, retirando gavetas e desmontando ornamentos para entender como uma peça foi feita. É ali, longe do martelo e da sala cheia, que começa boa parte do que o público reconhece como expertise.
“Nosso conhecimento é o nosso ativo mais forte”afirma, e a frase ajuda a compreender uma instituição cuja história acompanha quase 260 anos de mudanças no modo de olhar, classificar e colecionar objetos.


Quando James Christie realizou sua primeira venda em Pall Mall, em dezembro de 1766, o catálogo incluía lençóis, fronhas e outros itens domésticos. Poucos meses depois, em março de 1767, conduziu um leilão inteiramente dedicado à pintura, com obras atribuídas a Ticiano, Rembrandt e Poussin.
Christie aproximou o comércio de arte da vida social de St. James’s e fez de seus salões um lugar frequentado por artistas e colecionadores. O que antes se concentrava entre aristocratas tornou-se um mercado internacional no qual a Christie’s mantém presença física em 46 países e atua em mais de 80 categorias.
A Christie’s conserva registros de vendas desde 1766 e a documentação revela deslocamentos de gosto e atribuição. Em 1892, por exemplo, a casa vendeu L’Absinthe, de Degas, por £189. Na década de 1970, segundo Strafford, a Christie’s também ajudou a sistematizar uma linguagem de catalogação que se tornaria corrente na história da arte, com expressões como “círculo de” e “escola de”, usadas para indicar diferentes graus de proximidade entre uma obra e determinado artista.

Antes que qualquer conclusão apareça em um catálogo, há uma sequência de verificações que precisam ser feitas. Quando um objeto chega às mãos de um especialista, ele é examinado, descrito e discutido coletivamente. Esse processo é conhecido como “hilling”, nome herdado de King Street, quando as obras eram levadas por uma rampa no depósito para avaliação. Fotografias e informações podem ser encaminhadas a estudiosos externos, enquanto pinturas passam por luz negra e ligas metálicas podem ser submetidas a XRF para identificar sua composição.
Antes que qualquer conclusão apareça em um catálogo, há uma sequência de verificações que precisam ser feitas. Quando um objeto chega às mãos de um especialista, ele é examinado, descrito e discutido coletivamente. Esse processo é conhecido como “hilling”, nome herdado de King Street, quando as obras eram levadas por uma rampa no depósito para avaliação. Fotografias e informações podem ser encaminhadas a estudiosos externos, enquanto pinturas passam por luz negra e ligas metálicas podem ser submetidas a XRF para identificar sua composição.


A tecnologia amplia a investigação, mas não encerra a pergunta sobre autenticidade, procedência ou autoria. “Afinal, as obras de arte são, por si sós, misteriosas e milagrosas; e é esse mistério que apenas os humanos conseguem compreender e que a tecnologia jamais será capaz de apreciar”, diz.
Esse conhecimento também circula além das salas de venda, a Christie’s Education foi criada em 1978 para ensinar história da arte, connoisseurship e mercado, enquanto catálogos, bibliotecas e arquivos continuam a formar um repertório consultado por especialistas e pesquisadores. Strafford compara a casa a uma produção teatral em que o público vê a apresentação final, mas não acompanha as horas de exame e discussão que a tornaram possível.
“(...) Lidamos com uma combinação de ciência, pesquisa acadêmica e reação pessoal às obras de arte. Nada substitui essa reação emocional e subjetiva. Às vezes, ela basta para nos dizer se uma peça é autêntica. Mas é um trabalho árduo. É algo semelhante à montagem de uma peça de teatro: nossos clientes não veem o trabalho realizado, apenas o glamour da produção final, que é a venda.”



Preservar objetos por séculos é uma maneira de manter contato com uma história compartilhada. Sem dúvidas, essa parte invisível explica a permanência da Christie’s durante todos esses anos, pois mais do que registrar o que cada época decidiu comprar, seus arquivos documentam como critérios de importância, beleza e autenticidade mudaram ao longo do tempo. O leilão é apenas um dos momentos dessa história, antes e depois dele permanecem o estudo, a documentação e o olhar humano apurado para reconhecer o que realmente vale a pena.