Nascida em um estúdio de pintura em Estocolmo, a Byredo se tornou um dos nomes mais fascinantes do luxo contemporâneo. Ben Gorham transformou lembranças pessoais em fragrâncias globais, criando uma marca que fala tanto de cultura e design quanto de perfume.

Quando Ben Gorham decidiu criar uma casa de fragrâncias, não era perfumista e tampouco vinha da tradição francesa do setor. Era jogador de basquete, formado em artes visuais, que por acaso conheceu um mestre perfumista e descobriu que memórias podiam ser transformadas em cheiro. Esse encontro, aparentemente fortuito, marcou o início da Byredo em 2006. Desde então, a marca não nasceu de tendências de mercado, mas da percepção de que recordações pessoais poderiam se tornar universais.

Byredo vem da expressão arcaica em inglês “by redolence”, que significa “bom perfume”. É uma palavra quase esquecida, mas escolhida justamente por transmitir a ideia de preservar o efêmero

O próprio nome da marca já carrega uma camada de história. Byredo vem da expressão arcaica em inglês “by redolence”, que significa “bom perfume”. É uma palavra quase esquecida, mas escolhida justamente por transmitir a ideia de preservar o efêmero.

Desde o início, a proposta foi criar perfumes que não inventassem fantasias, mas que trouxessem à tona memórias vividas. A primeira fragrância, Green, misturava sálvia, laranja e almíscar, remetendo ao perfume do pai de Gorham e a lembranças da infância.

Se o conteúdo dos frascos era íntimo, a forma era radicalmente contida. O frasco da Byredo, em vidro transparente e pesado, com tampa magnética arredondada em preto e rótulo branco minimalista, parecia quase anônimo. Ao contrário da ostentação de tantas casas de perfume, Gorham preferiu o silêncio visual. Esse silêncio acabou virando assinatura: um objeto discreto que se tornou símbolo de reconhecimento imediato em qualquer lugar do mundo.

O mesmo rigor se aplica ao processo criativo. Cada fragrância pode passar por mais de cento e cinquenta versões até alcançar o equilíbrio ideal.

Essa paciência contrasta com a pressa da indústria, acostumada a lançar novidades no ritmo da moda. Em vez de se guiar pelo calendário, a Byredo deixa que cada criação amadureça no tempo necessário, o que faz cada lançamento soar como capítulo de um livro, e não como um produto de estação. A estratégia de expansão seguiu a mesma lógica. A loja de SoHo, em Nova York, foi concebida como extensão arquitetônica dos frascos: piso em terrazzo italiano, madeira de abeto de Douglas no teto e blocos de vidro que filtram a luz em uma atmosfera etérea.

Em Londres, a abertura levou anos até encontrar o espaço certo. A sensação ao entrar em uma boutique da Byredo é menos de estar em uma loja e mais de atravessar uma narrativa sensorial, onde o ambiente ecoa a clareza dos perfumes. Com o tempo, a marca ampliou o portfólio. Vieram velas, artigos de couro, maquiagem e até joias, lançadas em 2024. Cada novo objeto foi introduzido apenas quando fazia sentido dentro da gramática visual e conceitual da marca.

Uma bolsa ou uma sombra não eram adereços, mas continuação de um mesmo idioma estético. Esse cuidado explica por que a Byredo conseguiu se expandir sem se fragmentar, mantendo a mesma coerência entre frasco, loja e experiência.

Grande parte dessa força vem do próprio Gorham. Ele raramente usa perfume, o que pode soar estranho, mas reflete sua posição: não cria para si, mas para o outro. Bal d’Afrique nasceu dos diários de seu pai e da relação entre Paris e a cultura africana. Mumbai Noise traduziu a densidade de ruas indianas, com café, fumaça e som. São memórias pessoais convertidas em atmosferas abertas, que convidam qualquer pessoa a habitar aquelas lembranças.

As colaborações também foram usadas como extensão desse pensamento. Em parceria com Virgil Abloh, a Byredo lançou Elevator Music, um perfume que se comporta como música ambiente, questionando a ideia de que luxo precisa ser alto e evidente. Em outro momento, móveis e objetos de design foram incorporados ao universo da marca, transformando a casa em cenário de memória. Em vez de ações promocionais, essas colaborações funcionaram como ensaios conceituais, expandindo o campo de atuação da marca.

As mudanças de propriedade foram conduzidas com o mesmo cuidado. Em 2013, a Manzanita Capital adquiriu participação majoritária, e em 2022 foi a vez do grupo espanhol Puig assumir o controle. Em ambos os casos, Gorham permaneceu como diretor criativo e acionista. O fato de investidores preservarem sua voz é revelador: o maior patrimônio da Byredo não é o faturamento, mas a integridade criativa

Nesse cenário surge Alto Astral, um perfume que traduz otimismo como identidade cultural. A fragrância abre com aldeídos e coco, desdobra-se em jasmim, incenso e musk e repousa sobre sândalo, cashmere wood e âmbar salgado. Inspirado pelo Brasil, mostra cenas de samba ao entardecer, motos que cortam as ruas do Rio e o vento da praia que anuncia liberdade. Tudo registrado por artistas locais, em uma narrativa que privilegia autenticidade em vez de estereótipos.

A trajetória da Byredo pode ser lida em detalhes que parecem pequenos, mas juntos formam a arquitetura de uma marca. O nome retirado de uma palavra quase esquecida. O primeiro perfume ligado a lembranças de infância. O frasco silencioso que virou ícone. O processo criativo que exige mais de uma centena de tentativas. As lojas abertas apenas quando o espaço certo aparece. O fundador que cria, mas raramente usa perfume. O lançamento que mostrou que luxo pode ser discreto. As aquisições que reforçaram, e não diluíram, a identidade criativa. A linha de joias que confirmou a força de sua gramática visual. E, agora, uma fragrância que traduz a alegria brasileira como estado de espírito.

Desde o início, a Byredo mostrou que luxo não é exagero, mas clareza. Sua força está na coerência: manter códigos visuais, crescer com paciência, escolher colaborações que ampliam a narrativa e respeitar a biografia como guia. Encontrar a Byredo é encontrar a prova de que memória pode ser desenhada. E que, dentro do silêncio de um frasco, cabem mundos inteiros.

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Photos by Alto Astral © Courtesy of Byredo