By Catherine Jacobi

Ela surgiu como uma forma de imitar pedras caras. Em menos de um século, viajantes do Grand Tour esperavam anos por mesas feitas com ela por um monge nas colinas da Toscana.

Na Enlightenment Gallery do British Museum, a sala que Robert Smirke projetou na década de 1820 para abrigar a biblioteca de Jorge III, as paredes brilham em tons de pedra polida. O próprio guia do museu lista o que as reveste: granito, mármore e scagliola, em várias cores. A maioria dos visitantes passa sem olhar duas vezes, certa de estar cercada de pedra. Mas o terceiro material é gesso. Seus veios são tão profundos quanto os do granito ao lado, e sua superfície brilha com a mesma frieza. Michael Koumbouzis, scagliolista britânico que restaura esse material em casas históricas desde 1983, escreve que uma scagliola bem executada tem a aparência e a textura do mármore que imita, apenas um pouco mais morna ao toque. Pronuncia-se “scalhóla”, com o g mudo, e desde o século XVII ela se passa por pedra em interiores grandiosos. A história mais interessante é o que veio depois.

A King’s Library, atual Enlightenment Gallery. British Museum.

A história começa com a selenita, uma variedade translúcida de gipsita dos Apeninos que os italianos chamam de pietra di luna, pedra da lua. Os artesãos a moem até virar pó e a misturam com cola e pigmentos naturais, formando uma pasta colorida. Depois, pressionam essa pasta em cavidades entalhadas numa placa, seguindo um desenho, e polem a superfície seca até que ela brilhe. Como a cor atravessa o material em vez de ficar só na superfície, a scagliola pode ser lixada e polida como pedra, algo que o faux marbre, um efeito pintado, não permite. E como cada cor é misturada à mão, ela também escapa de uma limitação inerente à pietra dura, a arte florentina de cortar pedras verdadeiras e encaixá-las, em que a paleta depende do que a pedreira oferece.

Tampo italiano em scagliola, segunda metade do século XVIII.

A scagliola ganhou forma no início do século XVII em Carpi, perto de Módena, onde sua invenção é atribuída ao arquiteto Guido Fassi (1584–1649). As igrejas da cidade ainda guardam frontais de altar feitos com ela. Artesãos itinerantes logo levaram a receita para o norte, e uma das peças que deixaram pelo caminho mostra o material já escapando de sua função original. O Victoria and Albert Museum guarda uma mesa feita por volta de 1671, provavelmente na Inglaterra e atribuída ao italiano Baldassare Artima. As pernas fazem aquilo para que a scagliola foi inventada e imitam o mármore de Siena. O tampo faz outra coisa. Uma flor de coroa imperial brota de um vaso persa, cornucópias derramam limões e tomates, e pássaros e borboletas pousam sobre um fundo negro e lustroso. Nenhuma pedreira poderia fornecer essa paleta, e o museu observa que as cores continuam vivas, ao contrário das cores das mesas de marchetaria em madeira de mesmo formato. Numa única mesa, as pernas ainda imitam, enquanto o tampo já começou a inventar.

Painéis de scagliola imitando mármores coloridos, de Guido Fassi, na capela da Assunção, Catedral de Carpi, 1629. (Frontal de altar de Giovanni Gavignani, década de 1670.)

Na Toscana, essa invenção encontrou seu mestre. Enrico Hugford, florentino nascido de pais ingleses em 1695, aprendeu a scagliola como monge vallombrosano, perto das pedreiras de selenita de Marradi. Passou o resto da vida transformando-a em outra forma de pintura. De Vallombrosa saíam marinhas, portos, vasos de flores e cenas da vida monástica, imagens que não tinham motivo algum para fingir ser pedra. Colecionadores ingleses em pleno Grand Tour esperavam por elas. Em 1741, a placa de uma mesa encomendada por Horace Walpole rachou justamente quando Hugford a terminava. O diplomata Horace Mann implorou ao monge que recomeçasse e, mais tarde, contou que outros compradores ingleses haviam oferecido mais do que o preço de Walpole pelo resultado. Os padres que faziam essas mesas, escreveu Mann, “trabalham por diversão e não se deixam apressar”.

Painel de scagliola de Ferdinando “Enrico” Hugford.

A reputação de Hugford sobreviveu a ele. Oito anos depois de sua morte, o grão-duque da Toscana adquiriu quatro de suas paisagens dos herdeiros de seu irmão, o pintor Ignazio Hugford. Duas delas pertencem hoje ao museu do Opificio delle Pietre Dure, a oficina fundada pelos Médici para cortar pedras preciosas. A casa da pedra verdadeira abrira espaço para a sua imitação.

Foto de Marco Badiani. Cortesia do Opificio delle Pietre Dure.

Em meados do século XIX, as oficinas começaram a fechar. O cimento e a produção em série fizeram o resto, e as receitas desapareceram junto com elas. Foi preciso um funcionário do Ministério da Defesa italiano para trazê-las de volta. No fim da década de 1940, Bianco Bianchi (1920–2006) se encantou pelas mesas de scagliola do museu do Opificio. Passou cerca de dez anos à mesa da cozinha, testando misturas até que os antigos resultados reaparecessem. Seus filhos, Alessandro e Elisabetta, e hoje o neto Leonardo, ainda trabalham inteiramente à mão em Pontassieve, nos arredores de Florença. O processo é mais lento e mais físico do que a superfície acabada sugere. Os desenhos são entalhados com cinzéis pequenos e pesados, que podem escapar a qualquer momento. A pasta entra macia e úmida, e suas cores secam mais claras do que quando foram misturadas. Um único preenchimento pode levar duas horas para firmar no verão e oito no inverno. Em 2025, o V&A filmou a família recriando à mão parte da mesa do Castelo de Warwick, mais de três séculos depois do original.

A mesa do Castelo de Warwick, 1671. Baldassare Artima, Diacinto Cawcy. Cortesia do V&A Museum.

As encomendas da família mostram o quanto a scagliola se afastou de seu propósito original. Entre elas estão uma mesa com a Medusa para Gianni Versace, um tampo com brasão hoje no Palácio de Kensington e um painel inspirado na Flora da Gucci, a estampa de lenço desenhada em 1966 para Grace Kelly. O Houston Museum of Natural Science comprou o painel Flora em 2018. Esse museu guarda mais de 750 espécimes minerais em sua sala de gemas, cada um preso às cores que a terra lhe deu. O painel Flora, feito da mesma pasta humilde que reveste a biblioteca de Jorge III, mostra um jardim que nenhuma pedreira poderia oferecer. Em Londres, a scagliola foi escolhida para se passar por pedra. Em Houston, foi escolhida pelo que a pedra não consegue fazer. Foi assim que uma imitação se tornou objeto de desejo.

Mesa “Barocco”, criada para Gianni Versace, 1987. Bianco Bianchi.