O fio que une dois mundos
Enxoval x Eglantina Zingg
Trousseau e Eglantina Zingg se unem no algodão Pima, transformando a roupa de dormir em uma história de tradição, intimidade e artesanato sul-americano.
A coleção transforma o algodão Pima em algo maior que um tecido: um ponto de encontro entre tradição, artesanato e a intimidade da vida cotidiana.
Um novelo de algodão Pima, quando exposto à luz, revela uma qualidade que fibras mais baratas não conseguem imitar. A fibra é mais longa, a torção mais fechada, a superfície quase líquida. Absorve o corante de forma diferente, de maneira mais uniforme, e retém a cor com uma profundidade que o algodão de fibra curta deixa sem brilho. A própria planta é exigente quanto ao local de cultivo: prospera nos vales costeiros áridos do Peru, onde a baixa umidade, o solo rico em minerais e a ausência de chuvas intensas produzem fibras que podem ultrapassar 35 milímetros de comprimento, estando entre as mais longas do mundo. Esta é a matéria-prima a partir da qual... Enxoval A Trousseau construiu sua mais recente colaboração, e a especificidade dessa escolha diz tudo sobre o tipo de empresa que a Trousseau é.
A casa foi fundada em 1991 por Adriana e Romeu Trussardi Neto na Rua João Cachoeira, em São Paulo. A marca em si é relativamente jovem, mas a relação da família com os têxteis é muito mais profunda. O envolvimento da família Trussardi no comércio de fibras remonta a 1898, uma herança de conhecimento técnico que a maioria das marcas contemporâneas apenas consegue aproximar. O que começou como uma empresa de cama, mesa e banho evoluiu para algo mais próximo de uma filosofia de elegância privada: a ideia de que o quarto não é um espaço secundário, mas o palco mais íntimo da vida cotidiana, e que o que você veste nessas horas merece a mesma inteligência que o que você usa em público.
Existe aqui um fio condutor cultural mais amplo, que conecta a Trousseau a uma tradição artesanal sul-americana frequentemente negligenciada pela imprensa internacional de design. O Brasil possui uma rica, ainda que nem sempre bem documentada, história de produção têxtil e técnicas de acabamento manual, desde as tradições regionais de bordado até as comunidades artesanais de rendeiras, cujas habilidades foram transmitidas de geração em geração. O que distingue uma casa como a Trousseau não é o fato de ela se inspirar nostalgicamente nessa herança, mas sim a sua sustentabilidade comercial, mantendo as técnicas de acabamento manual economicamente viáveis dentro de um modelo de produção industrial. Os ateliês não são museus. São espaços de trabalho onde a habilidade herdada é aplicada à demanda contemporânea e onde o valor da paciência — o tempo necessário para bordar um monograma, para fazer uma bainha, para passar uma dobra — é tratado como uma vantagem competitiva, e não como uma ineficiência.
Coleção Trousseau X Eglantina Zingg.
O pijama e a máscara de dormir carregam uma história tranquila da América do Sul, com algodão cultivado no Peru e produzido no Brasil.
Enxoval A marca obtém seus tecidos mais refinados de fábricas italianas e finaliza seus bordados à mão em seus próprios ateliês no Brasil, um modelo de produção que mantém o controle de qualidade dentro da família e o artesanato dentro da cultura. A marca já forneceu roupas de cama para centenas de hotéis de luxo na América do Sul e colaborou anteriormente com... Irmãos Campana, A dupla de designers paulistanos, cuja coleção Plumas para a Trousseau se inspirou em memórias de infância da zona rural de Brotas, transformou penas e formas orgânicas em um vocabulário de conforto que conseguiu ser ao mesmo tempo sentimental e estruturalmente inventivo. A linha Millefile, tecida em algodão com mil fios, tornou-se uma referência discreta na categoria, o tipo de produto que os profissionais conhecem pelo nome, mesmo que nunca apareça em um anúncio.
A nova colaboração é com Eglantina Zingg, Zingg é uma empreendedora venezuelana cuja biografia desafia um resumo fácil. Nascida com raízes na região amazônica, criada em meio a diversas culturas e reconhecida pela revista Fortune como uma das latinas mais influentes de sua geração, Zingg transitou pela televisão internacional, moda e filantropia antes de lançar sua própria marca em 2024, uma plataforma construída em torno da autoexpressão, identidade e da ideia de que a roupa comunica mesmo quando quem a veste não diz nada.
A coleção, intitulada A Herança Compartilhada, Feita para Ser Sua, é uma edição limitada: um conjunto de pijama e uma máscara de dormir, ambos em 100% algodão Pima. O pijama apresenta uma gola estruturada, característica do design da Zingg, um detalhe que eleva a peça para além do universo das roupas de dormir, transformando-a em algo mais sofisticado. O algodão é cultivado no Peru e produzido no Brasil, um discreto ato de integração sul-americana que une as tradições artesanais de dois países em uma única peça.
Em setembro de 2025, Zingg visitou a sede e as instalações de produção da Trousseau no Brasil, passando um tempo não em um showroom, mas no chão da oficina. Ela observou a sequência de operações que leva um rolo de tecido da seleção ao corte, costura e acabamento, cada etapa executada por trabalhadores cuja expertise foi desenvolvida ao longo de anos no mesmo ateliê. Para Zingg, a visita confirmou o que ela havia intuído: que os compromissos da Trousseau (com a herança, com o trabalho manual, com uma espécie de paciência devocional na produção) refletiam os valores por trás de sua própria marca. É a primeira vez que um modelo da Coleção Eglantina Zingg é confeccionado em algodão Pima, e a combinação parece menos um acordo comercial do que uma conversa entre duas linguagens. Uma se expressa através da identidade e da expressão pessoal. A outra, através do material e da técnica acumulada. O que elas compartilham é a convicção de que as coisas mais próximas do corpo, as peças que ninguém mais vê, são justamente as que merecem maior atenção.