Modelo desde menina, jornalista de formação e mãe de três filhas, Cássia Ávila conversa com a Lifestyle Mag sobre moda, maturidade e a frase que escreveu em resposta a um desconhecido.

Por Catherine Jacobi

Em janeiro de 2022, Cássia Ávila publicou uma selfie nos stories do Instagram. Pouco depois, chegou uma mensagem privada de um perfil anônimo: “Envelhecer é triste.” Ela tinha 48 anos. Levou a foto para o feed e respondeu ali mesmo, para quem quisesse ler. “Que tolice, né?”, começou. E fechou: “Envelhecer é a escolha certa! Afirmo isso com segurança em dia e colágeno em decréscimo.” Colegas da moda e seguidoras saíram em sua defesa.

A essa altura, Cássia já tinha passado a vida inteira diante de câmeras. Começou criança, em Belo Horizonte, e fez parte da geração de modelos brasileiras dos anos 90. Depois, se formou em jornalismo e escreveu para revistas, sem deixar de posar: foi também o rosto das campanhas da joalheria Jack Vartanian, do marido. Em 2010, a GoWhere já a apresentava como referência de estilo em São Paulo e, em 2014, a Glamurama publicava suas dicas para um verão em Mykonos, das produções de noite às joias usadas até na praia.

Criou ainda um site de moda e beleza e, com as redes sociais, levou essa conversa para o Instagram. É ali que hoje, mãe de três meninas, fala com mulheres que, como ela, já passaram dos 50. Em 2024, entrou para a lista 50 Over 50 da Forbes Brasil, que reúne personalidades que se reinventaram depois dos 50 anos, na categoria de arquitetura, design e moda.

Quatro anos depois daquela mensagem, a frase volta na conversa com a Lifestyle Mag, mas a entrevista vai bem além dela. Nas respostas a seguir, Cássia lembra a menina que começou a desfilar aos nove anos, conta o que só conseguiu nomear sobre a moda depois de sair da frente da câmera, fala das filhas, do que entende por elegância e de uma Cássia de 80 anos que ela já sabe muito bem onde quer estar.

A entrevista completa

Lifestyle Mag: Você começou a desfilar aos nove anos e viveu o auge da moda internacional nos anos 90. Olhando para trás, o que aquela menina entenderia hoje sobre a mulher que você se tornou, e o que a mulher de hoje gostaria de dizer a ela?

Cássia Ávila: Minha mãe me levou para ser modelo quando eu tinha nove anos. Fiz um curso do que, na época, se chamava manequim; nem se usava a palavra modelo. Comecei fazendo alguns trabalhos em Belo Horizonte, que é a minha cidade, e aos 12, 13 anos já trabalhava profissionalmente.

O que eu diria para essa menina é: mantenha-se fiel, em qualquer circunstância, aos seus valores e à sua família em primeiro lugar. É a sua família que te ama e que estará sempre ao seu lado.

Também diria para ela manter-se fiel ao que ela é, levar essa profissão muito a sério, mas sem permitir que as coisas negativas afetem a sua vida pessoal ou a sua autoestima. E construir o seu estilo de acordo com aquilo que ela quer comunicar para o mundo, porque a moda é uma forma de comunicação.

Diria ainda para ser extremamente profissional, respeitar os clientes e os horários, saber circular com muita elegância, classe e sabedoria, e sempre se afastar de tudo aquilo que poderia levá-la para um caminho obscuro.

E essa menina entenderia que se tornou uma mulher independente, com um estilo próprio muito forte, uma mulher aguerrida, que conseguiu, com muita fé, muito esforço e muito trabalho, superar os obstáculos e atingir o sucesso naquilo que se propôs a fazer.

LM: Você trocou as passarelas pelo jornalismo e depois se reinventou mais uma vez como comunicadora digital. Existe um fio invisível que conecta todas essas versões da Cássia? Qual é ele?

Cássia Ávila: O fio invisível que conecta todas essas versões da Cássia é a comunicação, a verdade, a identidade própria e a curiosidade.

A moda sempre foi, e continua sendo, uma forma de comunicação. Além de comunicar aquilo que os clientes queriam, ela também comunica quem eu sou.

O jornalismo me deu a oportunidade de exercer essa comunicação por meio das palavras, escrevendo para várias revistas, e também despertou uma característica muito forte em mim, que é a curiosidade.

Hoje, nas redes sociais, consigo unir essas duas coisas: a imagem e o conteúdo. Em todas essas fases, sempre busquei me comunicar de forma verdadeira. A verdade é a base da minha trajetória. Foi assim que construí uma identidade própria e consegui me reinventar sem perder a minha essência.

LM: Poucas pessoas conhecem a moda por dentro como quem já foi o próprio produto dela. O que ser modelo te ensinou sobre a indústria que você só conseguiu nomear depois, do outro lado da câmera?

Cássia Ávila: Ser modelo me ensinou que a moda é feita de muitas etapas e envolve muitas pessoas. Para que exista um produto final, seja uma roupa, uma campanha, uma marca ou um editorial, existe o trabalho de inúmeros profissionais.

A moda nunca é sobre uma única pessoa. Não é apenas sobre uma top model, um designer ou uma marca. Ela envolve costureiras, modelistas, bordadeiras, designers, modelos de prova, modelos de campanha, fotógrafos, maquiadores, camareiras, produtores, stylists, editores, profissionais da indústria têxtil e até o porteiro da fábrica.

Foi do outro lado da câmera que consegui nomear isso com mais clareza: o sucesso de uma top model, de um designer ou de uma marca nunca é construído por uma única pessoa. Existe sempre uma enorme cadeia de profissionais trabalhando juntos para que aquele resultado aconteça.

LM: Você já disse que envelhecer é a escolha certa. Em um mercado que ainda vende juventude como ideal, o que significa, na prática, construir uma carreira sendo a prova viva do contrário?

Cássia Ávila: Em primeiro lugar, envelhecer é a escolha certa, porque a outra opção eu não quero. Só não envelhece quem já morreu. E eu amo a vida.

Para mim, construir uma carreira dessa forma significa representatividade. Fico muito feliz por poder representar as mulheres da minha idade, e sinto que represento todas as mulheres, porque todas nós envelhecemos. Quero representar a mulher em cada fase da sua vida. Já representei as meninas jovens, as mulheres de 20 e poucos anos, de 30, de 40, e hoje represento a mulher de 50 anos ou mais.

Continuo querendo comunicar que essa ideia de etarismo é uma grande bobagem, porque eu vejo beleza em todas as mulheres e em todas as fases da vida. Existe beleza em cada etapa, e nós não precisamos nos sentir feias ou diminuídas porque envelhecemos.

A maturidade é maravilhosa. Quero representar essa mulher forte, segura, determinada, aguerrida, que sabe o que quer, que tem uma história de vida e que ama moda. Uma mulher que se veste da forma que a faz se sentir confortável e bem. Uma mulher livre e feliz com quem ela é e com tudo o que construiu ao longo da vida.

LM: Qual foi o momento em que você decidiu que não ia mais negociar com o etarismo, nem nos trabalhos, nem no espelho?

Cássia Ávila: Sinceramente, eu nunca nem pensei sobre isso. Nunca houve esse momento. Eu simplesmente vou vivendo a minha vida, dia após dia, ano após ano, construindo a minha história.

Tenho minhas filhas, vivo cada etapa da minha vida e nunca olhei para o espelho para tomar essa decisão. Lógico que o corpo muda, o rosto muda, mas eu gosto de mim. Eu me amo. Sou feliz com quem eu sou e com tudo o que construí. Tenho uma autoestima muito elevada, talvez seja isso.

Por isso, acho o etarismo uma grande bobagem. Acho curioso quando as pessoas usam a idade como um xingamento ou uma crítica: “Ah, ela está velha.”

E respondo essa pergunta com outra pergunta: o que as pessoas pensam? Que a gente tem que morrer bonita e jovem?

LM: Existe alguma pressão estética que você já sentiu e hoje olha com carinho, quase com humor? Como foi fazer as pazes com ela?

Cássia Ávila: Na verdade, não. Se estivermos falando, por exemplo, da pressão pela magreza, eu realmente nunca vivi isso, porque sempre tive um biotipo alto, magro e longilíneo. Inclusive, essa foi uma das características que me levaram a ser modelo.

Então, sinceramente, essa é uma pressão com a qual eu nunca precisei fazer as pazes, porque nunca fez parte da minha história.

LM: A elegância 50+ que você comunica é sobre roupa ou sobre outra coisa? Se tivesse que definir elegância em uma frase, qual seria?

Cássia Ávila: A elegância que eu comunico, obviamente, tem a ver com a moda, que é a minha grande paixão. É uma forma de usar a moda a seu favor, entendendo que ela é uma ferramenta de comunicação e uma maneira de expressar quem você é.

Mas, para mim, elegância vai muito além da roupa. Elegância é a forma como você trata as pessoas, como se comporta, como fala, como chega e como sai de um lugar. É ter educação, respeito, gentileza e saber ocupar os espaços com naturalidade.

Se eu tivesse que definir elegância em uma frase, diria: elegância é saber ser quem você é, com respeito, educação e autenticidade.

LM: Você construiu uma comunidade de mulheres que se veem em você. Qual é a mensagem que mais chega no seu direct e o que ela revela sobre o que essas mulheres ainda não encontram na mídia tradicional?

Cássia Ávila: O que mais chega ao meu direct são mensagens de pessoas que se identificam com a simplicidade da minha vida. Com as mesas de café da manhã, comigo e minhas filhas, comigo levando e buscando as meninas na escola. E, ao mesmo tempo, também com os eventos de moda e os looks de alta-costura.

Acho que mostro que sou uma pessoa normal, real, como qualquer outra. Procuro aparecer de uma forma muito natural, sem filtros, e acredito que isso aproxima ainda mais as pessoas. Essa é a maior identificação das minhas seguidoras.

Eu não sou uma pessoa inatingível. A Cássia Ávila é alguém que, ao mesmo tempo em que veste um look incrível de um grande designer, também vai ao supermercado, leva as filhas para a escola e vive a rotina do dia a dia. Ou seja, é vida real.

LM: As redes sociais premiam o novo, o rápido, o jovem. Como você ocupa esse espaço nos seus próprios termos, sem se moldar à lógica dele?

Cássia Ávila: Eu não estou buscando nenhum prêmio, então acho que a resposta já começa por aí.

É verdade que as redes sociais valorizam o novo, o rápido e o jovem. Mas elas também são um espaço para pessoas de todas as idades. Hoje, praticamente todo mundo está nas redes, e eu não sinto que preciso me moldar a uma lógica para estar ali.

Uso esse espaço para mostrar a minha vida, compartilhar aquilo em que acredito, a minha paixão pela moda, a minha família e a minha rotina de uma forma verdadeira. Não crio uma personagem para as redes sociais. Acho que as pessoas se conectam justamente com essa autenticidade.

Nunca entrei nessa corrida para ser a mais jovem, a mais rápida ou a mais viral. O que eu quero é ser relevante para quem me acompanha, sendo exatamente quem eu sou.

LM: Você é mãe de três filhas. O que você faz questão de que elas aprendam sobre beleza e tempo vendo você viver, e não apenas ouvindo você falar?

Cássia Ávila: O que eu mais faço questão de que elas aprendam é a ser o mais naturais possível. Elas me veem vivendo dessa forma. Eu não faço coisas mirabolantes.

Elas também veem que eu tenho um espírito muito jovem. Sou moleca, brincalhona, engraçada, gosto de me divertir com elas. Sou o maior meme da minha filha adolescente e, no fundo, acho isso engraçadíssimo.

Acho que elas aprendem muito mais me vendo viver do que me ouvindo falar. E, para mim, a naturalidade é a maior fonte de beleza.

LM: Qual é um luxo da maturidade que ninguém te contou e que você descobriu sozinha?

Cássia Ávila: Penso que é saber dizer não. Dizer não para tudo aquilo que não me faz sentir confortável, que não faz sentido para mim.

Saber dizer não, poder dizer não, sem culpa e com tranquilidade, é um dos maiores privilégios que a maturidade me trouxe.

LM: Se a Cássia de 80 anos pudesse te mandar um recado hoje, o que você gostaria que ele dissesse?

Cássia Ávila: Vem. Pode vir feliz, porque eu estou aqui dançando meu forró, ouvindo meu rock, minha música dos anos 80, aquela bem, bem antiga. Indo à praia ou para a minha fazenda, vendo meus netos crescerem, me achando uma vovó bem maluquete e usando a moda com ainda mais liberdade, com ainda mais verdade, de uma forma bem inusitada e criativa.

E, claro, bebendo meu champanhe de altíssima qualidade.

Vem com tudo!