Uma viagem pela história, pelos símbolos e pela reinvenção contemporânea da boiserie francesa guiada pelo legado da Féau Boiseries.
Há elementos decorativos que atravessam séculos preservando uma aura quase litúrgica. Boiserie é um deles. Surgida na França do século XVII, quando Versailles ditava não apenas política, mas a própria gramática da beleza, ela começou como solução prática para paredes frias e irregulares. Aos poucos, os painéis de madeira talhada evoluíram de proteção a linguagem, transformando arquitetura em narrativa. Derivada de bois, madeira, a palavra boiserie ultrapassa o material.
No século XVIII, tornou-se um vocabulário visual. Folhas de acanto simbolizavam sabedoria. Guirlandas anunciavam prosperidade. Conchas evocavam poder marítimo. Salões de música exibiam motivos florais para sugerir harmonia. Bibliotecas adotavam padrões geométricos para expressar erudição. Cada painel era um retrato de época, talhado com precisão quase cerimonial.
Uma curiosidade encantadora é que muitas boiseries eram pensadas para viajar. Famílias nobres desmontavam os painéis levando consigo sua identidade arquitetônica. Hoje, restauradores leem uma boiserie como se fosse um manuscrito. Marcas de ferramentas revelam o escultor, vestígios de pigmento revelam gostos transformados e pequenas imperfeições funcionam como assinaturas secretas.
Do rococó sinuoso de Luís XV ao rigor neoclássico de Luís XVI e, mais tarde, ao luxo silencioso do Art Deco, a boiserie sempre espelhou seu tempo. Poucas maisons preservam essa herança com a profundidade da Féau Boiseires, fundada em 1875 e guardiã de um dos maiores acervos do mundo.


Instalado na Rue Laugier, em Paris, o ateliê reúne mais de trezentas salas completas dos séculos XVII ao XX. Em 2025, ao celebrar cento e cinquenta anos, a maison ampliou sua presença global com a abertura de um showroom em Nova York, no D and D Building, oferecendo aos americanos um encontro íntimo com esse savoir faire raro.
Lifestyle Mag conversou com Guillaume Féau, herdeiro da maison, que reflete sobre história, criação e o poder narrativo da madeira esculpida.
LM: Você lidera uma empresa cujas raízes remontam a 1875. Como essa história molda sua visão hoje?
G: A história começa em 1875, quando a empresa se dedicava à douração e ao décor pintado em madeira antes de se tornar referência em boiseries para grandes residências. Trabalhamos com clientes excepcionais como Béatrice Ephrussi de Rothschild, Henry Clay Frick e a família Vanderbilt, e até recriamos a Galerie des Glaces de Versailles para uma casa em Londres. Nosso ateliê hoje abriga mais de trezentas salas completas dos séculos XVII ao XX, criadas por mestres como Ledoux, Percier e Fontaine, Ruhlmann, Rateau e Jean-Michel Frank. Esse patrimônio nos dá um vocabulário único que reinterpretamos para a arquitetura contemporânea.
LM: Qual é a importância cultural e arquitetônica das boiseries no design francês?
G: As boiseries são a espinha dorsal da arquitetura francesa há mais de três séculos. Elas moldam proporções, guiam a luz e criam universos completos. Para isso, exigem carpintaria, escultura, patinas, pintura, douração e inúmeras outras especialidades. Não são ornamento, mas identidade. Expressam o gosto, as ambições e o modo de vida de cada época.


LM: Qual foi o estilo histórico da sua coleção que mais te marcou e o que ele revela sobre o espírito daquela época?
G: Uma das salas que mais me marcou é o grande salão de Jacques Émile Ruhlmann, em jacarandá brasileiro, criado para um lorde inglês e hoje no Louvre Abu Dhabi. O conjunto mistura baixos relevos inspirados na Secessão Vienense com uma modernidade geométrica surpreendente. Os anos 1930 trouxeram mais calma, simplicidade e materiais como laca, couro, pergaminho e carvalho escovado. Uma modernidade discreta, reflexo de uma sociedade que buscava elegância sem excesso.
LM: Quando um cliente encomenda uma boiserie hoje, o que permanece do passado e o que se torna contemporâneo?
G: Frequentemente começamos com um detalhe histórico, como um fragmento de moldura ou um motivo esculpido. Recentemente criamos um painel em gesso inspirado em uma folha de bambu de uma chinoiserie do século XVIII. A sala final é contemporânea, mas seu DNA é antigo. Ao reinterpretar detalhes em vez de copiar ambientes completos, honramos a linguagem dos mestres sem perder liberdade criativa.
LM: Qual é um projeto recente em que as suas boiseries ajudaram a contar uma história de forma especial?
G: Trabalhamos recentemente com o escritório Liaigre em um projeto privado. Para o bar, reinterpretamos painéis Régence com uma patina preta fosca. Com o mobiliário puro da Liaigre e obras de Francis Bacon, o ambiente se tornou simultaneamente histórico e radicalmente contemporâneo. Essa tensão entre eras é o que mais nos inspira.
LM: O que um colecionador deve observar ao investir em boiseries históricas?
G: Boiserie é arquitetura, não objeto. É preciso considerar volumes, gosto e proporção. O equilíbrio entre madeira, entalhe, patina, proveniência e escala é complexo. Por isso, trabalhamos de perto com designers e arquitetos para criar ambientes belos, habitáveis e cheios de significado.
LM: Como a Féau evolui diante de novos gostos, minimalismo e sustentabilidade sem perder seu DNA?
G: Nosso foco é manter o nível de qualidade dos grandes mestres. Estudamos salas históricas com profundidade e as colecionamos sempre que possível, o que nos permite compreender técnicas com precisão. Ao mesmo tempo, exploramos materiais contemporâneos como vidro moldado e marchetaria de palha, que desenvolvemos em altíssimo nível há mais de vinte anos.
LM: Qual é sua peça preferida no acervo e por quê?
G: É difícil escolher apenas uma. Uma das minhas favoritas, adquirida por Stephen Schwarzman para Miramar, em Newport, é uma sala dos séculos XVII e XVIII decorada com medalhões esculpidos de imperadores romanos. Também adoro um gabinete de curiosidades criado para um membro da família Rothschild. Em ambos os casos, a boiserie funciona como palco para a história do proprietário, que é afinal o papel mais belo que ela pode desempenhar.